Na obra “As três ecologias”, o pensador Félix Guatari manifesta toda a sua indignação perante um mundo que vem se deteriorando lentamente, através dos desequilíbrios ecológicos, onde acidentes químicos e nucleares se tornaram comuns e algumas doenças são incuráveis.
Esses fenômenos, se não forem remediados, ameaçam a vida do homem no planeta. A vida social dos indivíduos também tem se deteriorado aos poucos, as redes de parentesco são reduzidas a cada dia, a vida doméstica é suplantada pelo consumo, a convivência dos casais e das famílias vive uma espécie de padronização de comportamentos e as relações entre os vizinhos estão cada vez mais escassas e os governos parecem ter apenas uma consciência parcial dos problemas que ameaçam o meio-ambiente, restringindo-se ao campo dos danos industriais.
Segundo Guattari, somente uma articulação ético-política entre as três ecologias (o meio-ambiente, as relações sociais e a subjetividade humana) é que poderia esclarecer tais questões. Porém, diz ele, “Não sou tão ingênuo e utopista para pretender que existiria uma metodologia analítica segura que erradicasse em profundidade todos os fantasmas que conduzem a retificar a mulher, o imigrado, o louco etc, e eliminasse as instituições penitenciárias, psiquiátricas etc. Mas parece-me que uma generalização das experiências de análise institucional (no hospital, na escola, no meio urbano...) poderia modificar profundamente os dados desse problema. Uma imensa reconstrução das engrenagens sociais é necessária para fazer face aos destroços da globalização[2]. Só que essa reconstrução passa menos por reformas de cúpula, leis, decretos, programas burocráticos do que pela promoção de práticas inovadoras, pela disseminação de experiências alternativas, centradas no respeito à singularidade e no trabalho permanente de produção de singularidade, que vai adquirindo autonomia e ao mesmo tempo se articulando ao resto da sociedade. Dar lugar para as brutais desterritorializações da psique e do socius, [...] pode conduzir [...] a reconversões de Agenciamentos que transbordam por todos os lados o corpo, o Ego, o indivíduo. As comunidades humanas imersas na tormenta tendem a se curvar sobre si mesmas, deixando nas mãos dos políticos profissionais o cuidado de reger a organização social, enquanto [...] a sociedade [...] encontra-se em crise latente e manifesta.” (p.44)
Há uma necessidade urgente de rever o contrato, a base que sustenta a sociedade, desta forma, Guattari orienta na sua teoria que: “A ecologia social deverá trabalhar na reconstrução das relações humanas em todos os níveis, do socius. Ela jamais deverá perder de vista que o poder capitalista se deslocou, se desterritorializou, ao mesmo tempo em extensão - ampliando seu domínio sobre o conjunto da vida social, econômica e cultural do planeta - e em "intenção", infiltrando-se no seio dos mais inconscientes estratos subjetivos.” (p.33)
As palavras acima citadas e o título escolhido exprimem exatamente o que deveria acontecer em relação aos problemas vistos e vividos pela sociedade atual, problemas estes que nada mais são que os resultados de uma evolução que se fez necessária. Não adianta dizer que as coisas estão erradas e delegar aos outros que as (re)organizem. Precisamos entender que o que estamos vivenciando hoje é fruto das escolhas que fizemos e atitudes que tomamos em um passado não muito distante. Queremos, com isso, dizer que todos devemos nos responsabilizar pelo “mundo que criamos” e buscar alternativas criativas para uma (re)evolução em sentido contrário ao que presenciamos até aqui.
Propomos que a partir de agora todos tentem enxergar as mudanças positivas que estão ocorrendo e que ainda podemos proporcionar, mas é claro que não devemos fechar os olhos para tudo aquilo que continua errado e incongruente, pois é exatamente quando temos conhecimento destas falhas que conseguimos elaborar estratégias para “vencê-las”.
[1] Frase extraída da página 55 do texto “As Três Ecologias” de Félix Guattari com tradução de Maria Cristina F. Bttencourt.
[2] Modificamos a sigla CMI pela palavra Globalização por acreditar que esta é mais adequada ao que queremos expor nesta reflexão.
(Para assistir ao vídeo, recomendamos que dê uma pausa na música ambiente do blog.
Por se tratar de um vídeo criado com propósito comercial, pedimos que desconsidere a propaganda da marca e aproveite a mensagem que está sendo transmitida.)
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Bibliografia:
Guatari, Félix; tradução de Maria Cristina F. Bittencourt. As três ecologias - 6ª ed.; Campinas - SP: Papirus, 1997.
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